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Hipnose em terapia: possibilidades e ressalvas
Publicado em: 20 de dezembro de 2010, 12:45:05  -  Lido 2775 vez(es)



> Perguntaram em http://formspring.me/LazaroFreire
> O que você acha de terapias baseadas em hipnose? 
> Em que casos podem ser indicadas?

Tenho algumas ressalvas. A hipnose acessa sim o inconsciente. Freud a usou no começo, e todo psicanalista tem formação ou pelo menos noções de hipnose. Foi o PRIMEIRO módulo de minha formação. Mas foi demonstrado, já no começo da psicanálise, que a Associação Livre e interpretação de sonhos e transferências é uma técnica mais eficiente, segura e produtiva.

Mas a questão é que há muitas limitações. A psicanálise abandonou a hipnose como técnica por causa delas, não compensa:

1) É demorado e impreciso. Em alguns casos, perde-se muito tempo na indução do estado. Ficaria inviável em sessões curtas. Acaba sendo, muitas vezes, quase amador.

2) Nem todas as pessoas são hipnotizáveis. A maioria são, mas nem todas. Não dá para trabalhar com algo que não funciona em 10 a 20% das pessoas. Como atender 40 pessoas por semana com tanto furo e imprecisão?

3) O maior problema é que a linguagem do inconsciente é OUTRA. Uma pessoa hipnotizada para falar de seus processos internos usará linguagem SIMBÓLICA. Por exemplo, num sonho um cigarro pode ser um falo, uma simbologia de prazer, e por extensão até mesmo uma alusão ao pai, ao masculino (associado simbolicamente ao fálico). Na hipnose, a pessoa está em um acesso INCONSCIENTE, portanto, como nos sonhos, as referências ao que é simbólico e ao que é literal ficam muito tênues. Assim, quando dizemos a alguém hipnotizado que ela deve CORTAR O CIGARRO, por exemplo, para ajudá-la a parar de fumar, há riscos de (se der certo) ela não só parar de fumar, como também se tornar estranhamente impotente. Afinal, a frase poderia ser aceitar (até mais facilmente) em níveis mais profundos do inconsciente, onde o cilíndrico é muito mais o prazer e o fálico do que um mero enroladinho de tabaco. É imprevisível!!! 

Portanto, mesmo nos casos em que hipnose dê certo, e que seja viável, deveria ser usada apenas para levantar material inconsciente, via transe, e não para tentar intervenções "diretas", a meu ver. O inconsciente do paciente é único, e NINGUÉM, por melhor hipnotizador que seja, tem como prever COMO a pessoa associará os comandos, simbolicamente, na estrutura mais profunda de sua psique.

4) Infelizmente, a maior parte dos hipnotizadores de cunho "terapêutico" trabalha mais com técnicas cognitivas, truques, sugestões diretas, tentativas de "cura". Como sempre digo aqui, a psicanálise até respeita, mas vê com muitas ressalvas essas pretensões de "cura" da psique alheia, como se determinados comportamentos (ou mesmo neurores) fossem apenas "problemas" exteriores (que precisam ser "curados" e suprimidos via "terapia", como se o sujeito fosse um "paciente" e sua organização interna uma "doença") - e não a faceta exterior de uma causa inconsciente e psicodinâmica muito mais profunda. Nada contra a hipnose, já que psicanalistas são também hipnotizadores, mas cabe aí a mesma crítica que fazemos sempre aqui à psicologia coginitivo-comportamental, à PNL, às técnicas de catarse e mais ainda às técnicas de "terapia" alternativa ou "resolvedora de problemas". As pessoas querem curar um tique, e não investigar os seus porôes psíquicos que estão VAZANDO em um comportamento estranho à sociedade. QUerem SAIR da depressão a qualquer preço, mas raramente querem ver seus próprios padrões que a levam invariavelmente ao mesmo lugar, ou ao mesmo tipo de pessoa. Corremos o risco de curar um sintoma e piorar MUITO a pessoa, já que a causa não foi mexida, e sem a saída NORMAL da neurose que tinha, o inconsciente terá mais tarde que arrumar uma outra forma até mais grave para compensar e se reequilibrar. Por isso dizemos que essas técnicas mágicas e rápidas são muito boas e rentáveis... para os terapeutas: Curam a depressão, e meses depois tem de volta uma síndrome do pânico. Ajudam a abandonar uma pessoa ou situação que incomoda, e já já tem o freguês de volta, piorado, repetindo o mesmo padrão.

Poderíamos exercer a hipnose sem cair no ítem 4. Alguns raros hipnotizadores talvez tenham essa competência. Psicanalistas também. Mas os psicanalistas não fazem por causa do explicado no ítem 3, e porque a ASSOCIAÇÂO LIVRE (técnica psicanalítica) é mais eficiente e prática, não temos necessidade. O problema da hipnose é que, quando funciona, funciona muito, e por isso mesmo exige uma pessoa exageradamente responsável e preparada para lidar. Bons hipnotizadores muitas vezes são só excelentes hipnotizadores, e não necessariamente excelentes psicólogos ou psicanalistas para lidar com o estado que atingem. Portanto, tenho ressalvas. 

Respeito muito os poucos que fazem isso verdadeiramente a sério, mas para nós é algo arriscado e desnecessário, uma vez que temos ferramentas melhores e mais seguras para atingirmos a mesma coisa, em psicanálise.

Lembrando que essa é apenas a MINHA visão, que evidentemente não é a única nem infalível. Mas está muito bem embasada pelo que percebo até aqui, e espero ter demonstrado minhas razões por preferir, hoje em dia, outras possibilidades de intervenção diferentes da hipnose, transes, "terapias" aconselhadoras, PNL e cognitivo-comportamental. Embora eu saiba que, em alguns casos, um certo auxílio de técnicas mágicas pode ser útil, DESDE QUE não substitua a ANÁLISE psicodinâmica mais profunda.


Lázaro Freire
Psicanalista Transpessoal
http://voadores.com.br/clinica

--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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