12 de dezembro de 2018
                 
     
                         
Lázaro Freire, Acid0 e Lobão na MTV: Daime é droga ou religião?
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Esclarecendo os equívocos comuns sobre o uso de enteógenos, ayhuaska (aiuasca), santo daime, peyote e LSD para fins "religiosos"
Publicado em: 23 de novembro de 2009, 13:40:44  -  Lido 4120 vez(es)



> Nome: Rafael
> Email: Rafael_79@...
> Comentário: Para os que não são conhecedores do trabalho do Santo Daime

> ai vai o que representa realmente:
> O daime foi legalizado pelo código penal por conter apenas 0,02%
> de DMT. Ou seja ele é considerado entogeno e não alucinógeno.

 

Ótima mensagem, Rafael. Esse seu email sintetizou involuntariamente vários enganos repetidos sem questionamento ou pesquisa pelo senso-comum em casas de daime. Ótimo para esclarecer rapidamente alguns equívocos, ditos sem embasamento por padrinhos, e só por isso repetidos ao infinito por usuários e sites de internet.

 

1) Não é o código penal que "legaliza" algo. Aliás, se estivesse no código penal (não estava), seria crime.

2) O daime é aceito na legislação brasileira por questões religiosas nativas, para uso em contexto fechado. Entretanto, em grande parte dos países do mundo, dá cadeia, como qualquer outra substância alucinógena. Damistas brasileiros já foram presos como traficantes de drogas na Europa. Por falta de informação, esquecem-se do que realmente tomam, e acham que a liberação no Brasil e EUA (por motivos culturais indígenas) é universal. Não é!

3) Enteógeno é a apenas a tradução de um neologismo inglês proposto em 1973 por usuários de LSD e Peyote em contexto religioso. Vide Thimoty Leary (preso e morto por causa de drogas "enteógenas"), Stanilav Grof, Robert A Wilson  e outros pesquisadores "transpessoais" (sic) aficcionados por drogas, todos eles defensores do daime hoje assim como antes do LSD.

3.1) Em suma, enteógeno quer dizer apenas "Alucinógeno usado em contexto religioso". Um eufemismo atenuador, intencionalmente criado por usuários. Não é um termo classificatório da legislação. Não faz parte do código penal.

4) O DMT é produzido - em pequena dose - pelo próprio corpo. Entretanto, sem o daime ele é metabolizado. A questão do Daime não é (só) quanto de DMT ele tem, mas as associações com outras ervas (inibidores naturais da MAO) intencionalmente associadas ao chá para impedir o metabolismo do DMT - e, por conseguinte, fortalecer o efeito da droga.

4.1) A concentração de daime e aihuaska varia bastante em cada casa, e a quantidade ingerida também. Não há sentido falar em percentual de concentração. Algumas casas hoje servem "mel", um concentrado grosso sem diluição.

4.2) Não faz sentido dizer 0,02% do líquido. Como em qualquer droga, o efeito se dá pela quantidade em relação à capacidade de quem toma. Uma gota de conhaque é menos nocivo que um garrafão de vinho. E menos de 0,02% de concentração de veneno em um copo, por exemplo, já seria fatal.

4.3) Remédios também tem princípios ativos de miligramas. Já fui em ritos que ministram copos copos de 300ml cheios como dose (obrigatória) inicial, repetidos várias vezes à vontade. 0,02% do primeiro copo já seriam gigantescos 6g de princípio ativo. Já presenciei um artista relativamente conhecido tomando 10 copos em uma única sessão.

> Segundo que é claro que vc deve ter se sentido um Raul seixas por
> ter tomado o Daime em algum lugar impróprio escutando o que não
> devia. O trabalho quando é levado a sério e feito com respeito é
> muito proveitoso.

5) Conheci casas sérias, com boa condução espiritual. Isso não muda em nada as propriedades e riscos da substância; apenas melhora a qualidade daquilo que pode ser obtido no transe.

6) Ter alguém bem intencionado conduzindo, e ótimas pessoas inocentes em volta, INFELIZMENTE não opera modificações na química do entorpecente. Embora, concordo, é melhor usar drogas enteógenas em ambientes e propósitos assim do que entre pessoas ruins.

> Existem estudo na Unifesp onde foi utilizado o daime na cura de
> sindrome do panico e outras doenças pisicológicas, basta acessar o
> google para comprovar.

7) EXCELENTE, obrigado! Os estudos da Unifesp classificam o daime (caapi e chacrina) e aihuaska como ALUCINÓGENOS, causadores de delírios e alucinações. Os padrinhos citam que "há estudos da UNIFESP", mas sequer se dão ao trabalho de ler:
http://www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/folhetos/cogumelos_.htm

8) O tratamento de síndrome de pânico e doenças psicológicas usa substâncias psicoativas / neurolépticas. Mas NUNCA indiscriminadamente, sem considerar efeitos colaterias, como ocorre no daime.

8.1) Em alguns casos de depressão e hiperatividade, são usados inibidores da MAO, presentes no Daime. Mas não DMT e outras associações. O fato de ter eficácia comparada ou superior a alguns remédios de saude mental, todos eles de uso controlado, só ressalva a necessidade de cuidados. Além do mais, um remédio para depressão é veneno para um bipolar, um remédio para pânico não é necessariamente o mesmo do da depressão, e não se aumenta a concentração de dopamina em psicóticos, por exemplo.

8.2) Dentre usuários aleatórios, alguns de fato podem ter melhoras eventuais, mas isso não justifica a ministração a todos, nem sem critério. Ao contrário, esse é mais um argumento para a necessidade de acompanhamento médico

> Aprendam a utilizar o Santo Daime primeiro de maneira correta
> e digna para depois falar de Deus.

9) Dizer que só se pode falar de Deus após usarmos o Santo Daime (e de acordo com as imposições e credo da religião) é no mínimo falacioso. E, provavelmente, desrespeitoso e inconstitucional.

10) Respeita-se o rito e a religião, qualquer que sejam eles. Outra coisa bem diferente é querer que o OUTRO (nós) aceitemos que uma planta seja nosso único Salvador, Senhor e Deus. É o que está por trás da afirmação "só após usar o Daime da maneira 'correta' (sic) alguém poderá falar de Deus". Não generalize sua experiência pessoal - ela é intransferível SUA, mas aos olhos do outro, se imposta torna-se apenas alucinação.

( Como propõe o site da UNIFESP ;-)

Lázaro Freire


--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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