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Conversando sobre... Etimologia, Psique, Filosofia e Espiritualidade
Publicado em: 24 de abril de 2009, 23:28:25  -  Lido 4724 vez(es)



--- Na Lista Voadores, http://lista.voadores.com.br, "tinakague" escreveu:
> > Para (James) Hillman isto se torna mais explícito quando
> > penetramos no mundo dos insetos. Em seu artigo "Going Bugs", que
> > podemos traduzir taoisticamente como "O Caminho dos Percevejos",
> > ele comenta rapidamente a fenomenologia deste encontro entre
> > homem e inseto.
> > A palavra inglesa bug, insetos como percevejos e besouros, possui
> > outras denotações bastante significativas para nosso estudo:
> > idéia fixa, entusiasmo, defeito mecânico ou eletrônico, loucura,
> > escuta clandestina.
> > Transformando bug em prefixo, podemos ainda traçar estes outros
> > significados descendo a coluna do dicionário20: bugaboo: s.
> > fantasma, bicho papão, temor imaginário; bug eyed: a. que tem
> > olhos saltados; bugger: s. sodomita, (vulg.) malandro, patife;
> > buggery: s. sodomia, bestialidade; buggy: a. infestado de bichos,
> > (Ing) charrete; bughouse: s. (gir.) manicômio, a. (gir.) louco,
> > doido; bug hunter: s. (coloq.) entomologista.

> Camilla Avella:
> Muito interessante isso. É meio liguistica. Eu gosto de saber
> as origens das palavras.

 

 

FREUD E A PSICOPATOLOGIA... DA VIDA COTIDIANA 


Bastante interessante. Freud tem um livro inteiro - divertido e fácil de ler - sobre esses jogos de palavras, inclusive com vocábulos de línguas estrangeiras, e suas relações com o inconsciente. Chama-se A PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA. (O que me lembra que precismos colocar no ar de volta os "arquivos voadores" que tinhamos até o ano passado, e incluiam as obras completas de Freud em txt).

Gostaria de compartilhar um caso interessante que me ocorreu na clínica de psicanálise, nessa semana, sobre associações de palavras e etimologia com termos de língua inglesa - e completar com algumas reflexões sobre o significado de termos em grego e latim, que fizemos na aula de Teoria Do Conhecimento (Epistemologia) dessa sexta. (Comentei no meu Twitter http://twitter.com/lazarofreire , mas os temas requerem mais que 140 caracteres)


RELATO CLÍNICO - ENCOLHIMENTO

 "O inconsciente é linguagem" (Jacques Lacan)

 

Um paciente que é fluente em inglês e já trabalhou nos EUA me relatou (nessa semana) um sonho em que havia um encolhimento da cabeça de alguém. Dias depois de ter sonhado, ele notou que um amigo de trabalho com cabelo "black power" imenso havia feito aqueles dreads, trancinhas rentes ao coro cabeludo, e parecia que sua cabeça havia encolhido.

 

Já no divã, ao relatar o sonho, que (por outros motivos) tinha FORTE conotação transferencial, indicando a NECESSIDADE de EFETUAR mudanças e rearranjos sugeridos pela psicoterapia, ele lembrou que o termo SHRINK em inglês significa tanto "encolher" quanto a gíria para "psicanalista".

 

O paciente lembrou-se, em sessão, que quando morava nos EUA ele sempre havia achado curiosa essa gíria, e havia perguntado por lá, na época, porque usavam shrink para psicoterapia. Um amigo lhe disse que é isso que a terapia faz, "encolhe" a cabeça. "Como assim?", ele perguntou. "Não seria o contrário, expandir?". 

 

Segundo a etimologia e visão popular anglo-saxônica, não. Para eles, carregamos coisas demais, gerando neuroses, temos a mente desorganizada, e quando procuram um terapeuta (lá é comum, até um status, e não essa visão pejorativa de "doença mental" que temos aqui), estão buscando um rearranjo, uma compactação, uma reorganização assessorada por profissional especializado - ou seja, um "encolhimento", reacomodação mais funcional. Um "shrink", daí a gíria. Faz sentido.

Curioso é que o inconsciente de meu paciente foi buscar a etimologia da GÍRIA inglesa, lá no passado que ele já havia esquecido, para construir uma imagem de cabeça encolhendo como metáfora para a necessidade dele mesmo reorganizar (na prática) sua vida e conteúdos, a partir das observações do "shrink" encolhedor terapeuta.

 

Mais curioso ainda, o inconsciente olhou lá do alto da PIRAMIDE DA CONSCIENCIA ATEMPORAL (a esse respeito, vide artigo imperdível em
http://www.voadores.com.br/site/geral.php?txt_funcao=colunas&view=4&id=212 , acho que essa é minha maior contribuição pessoal ao conhecimento psicológico / espiritualista / quântico / filosófico até aqui, vale a pena tentar compreender o que quis dizer lá) e conseguiu eleger, como base de sua metáfora onírica, um EVENTO FUTURO (!!!) recente, ou seja, o colega de trabalho que IRIA fazer um "encolhimento" em seu cabelo black power JUSTAMENTE na véspera da sessão de meu paciente. Observem que o inconsciente reorganizou tudo isso a partir de uma associação LINGUÍSTICA do shrink-encolher-analisar-reorganizar , e ainda por cima em LÍNGUA ESTRANGEIRA!!! Fascinante.

 

INCONSCIENTE COLETIVO E O SENTIDO DE EXISTIR 


É por essas que, anos atrás, quando comecei a perceber as consequências do que minhas leituras de Jung, Maya Hindu e Espiritualidade lançavam sobre o que vem a ser essa realidade que nos cerca, e qual poderia ser o sentido do que mais e mais me configurava como uma ilusão existencialista-sensorial,  - a vida como um "sonho-lúcido" de alto grau de continuidade - eu TIVE que me dedicar mais à psicanálise/filosofia, mesmo SABENDO que provavelmente ganharia bem menos - em dinheiro, pelo menos - com essa opção. Ora, se nem sei bem o QUE É isso aqui, o porque de existir ALGO e não o NADA, não faz sentido viver como se o objetivo de minha vida fosse comer-reproduzir-dormir, ou fazer um programinhas de computador em troca de "dinheiro". Acho aliás curioso como tantos psicoterapeutas "conseguem" aceitar tecnicamente e trabalhar um inconsciente coletivo, sincronicidades e previsões no relato de seus pacientes e, mesmo observando o "milagre" todos os dias, não param para refletir sobre as consequências filosóficas do que testemunham, as quais fatalmente lançaria saudáveis desconfianças sobre o sentido de existir, a transcendência e a natureza da realidade.



SANTA INGENUIDADE - ISSO PARECE GREGO PARA MIM

 

Ainda no tema etimologia, hoje de manhã na minha aula de Teoria Do Conhecimento / Epistemologia da Licenciatura adicional que curso (vide fotos de hoje em http://twitpic.com/3w09o e http://twitpic.com/3vy72 , discutiamos sobre a ORIGEM (esquecida) de três palavras bem curiosas. Impressionante como no português usamos as palavras sem saber o seu porquê. E acabamos perdendo a própria acepção primária de cada ação.

1) INFÂNCIA - Do latim - IN-FANS.., Sem capacidade de fantasiar, falar, pensar. O fantasiar na acepção antiga de uma capacidade de elaboração, que acaba ligada indispensavelmente à fala e ao pensamento, praticamente como sinônimo. LOGO, quem está na infância não é bem aquele que "fantasia" na acepção moderna, mas ao contrário, aquele que NÃO É capaz de elaborar sua fala, pensamento e expressão. Ou seja, quem não é capaz de se expressar bem, e nem ao menos se esforça para isso, é por definição, uma pessoa I-mATURA, in-fantil. (Isso explica o "português" do MSN).

2) ALUNO - Do latim. A-LUMNO, Sem lumni, sem luz. Logo, quem "professa" é o iluminador; e, portanto, luciferiano. Luciferiano é quem exerce o Fiat Lux, fazer a luz, e não o contrário. Ser professor é ser luciferiano, mesmo em uma escola cristã - o que talvez explique o salário desses pobres diabos. O termo a-lumni Implica também que aquele que não tem a humildade de apre(e)nder
encontra-se se, necessariamente, em TREVAS. E aquele que desvaloriza o Aprendizado, o esclarecimento, o debate, o pensar, é, por etimologia, trevoso e in-fantil, mesmo que seus credos e opções tentem afirmar o contrário. Juro Que não é indireta pra nada, nem pedrada na crença de ninguém. As fotos da aula não me deixam mentir.

Desse termo 2 também concluimos que quanto mais a sociedade atual desvaloriza o aprendizado, a humildade, a filosofia, o elaborar do pensamento - substituindo por crença de "concordância" ou por "resultados" materiais "objetivos" - mais teremos uma treva interna que, compensatoriamente, estimulará as pessoas a tentarem desenvolver formas SUBSTITUTAS de iluminação. Luzes artificiais. Isso explica, provavelmente, o narcisismo e hedonismo de hoje em dia, a busca de um "palco", o culto de pseudo-celeBBBridades no estilo "referenciais projetivos descartáveis a la miojo lamen".

E, por fim, do grego:

3) KOSMOS - oriundo de metáforas de dança, o termo ganhou a acepção de explicar o conjunto da totalidade harmônica, perfeita; e, por extensão, o próprio "céu" (hyper-uranos), que era visto como circular, perfeito, incorruptível (até Bruno e Galileu).

4) GENNEA - nascido pelo parto, o "genital". O termo dá origem a derivados como genealogia, genética, genitais, gênese, ingênuo, gônadas, cosmogonia.

 

A VIDA SEXUAL DE DEUS 


5.1 Daí a gente une ambos e temos COSMOGONIA, ou seja, a tentativa de explicar a ORDEM das coisas (cosmos, a harmonia, a dança da vida, e por extensão o próprio universo e seu sentido) a partir da relação mitológica baseada em relações GENNEAlógicas (que Deus grego transou com qual para dar origem a o que ou a quem). Aliás, curioso que no hinduismo temos SHIVA como um dançarino divino, Nataraja, cujos passos transformadores dão ORDEM ao Kosmos.

Seu contraponto é a COSMOLOGIA, ou seja, explicações sobre o COSMOS de origem LÓGICA, explicável pelo LOGOS, razão, sem precisar recorrer a nenhum mito ou relação de parentesco divino. Conclui-se daí que o cristianismo e o hinduismo são COSMOGONIAS, e não necessariamente COSMOLOGIAS. Vale o mesmo para a Astrologia, uma cosmoGONIA, em contraponto à Astronomia, uma cosmoLOGIA. Notem o quanto o termo é mal aplicado por aí, inclusive nossos nossos meios universalistas e espiritualistas. Se uma explicação precisa ser aceita porque Kardec ou um sacerdote falou, ou porque um médium ou professor de confiança viu e está nos contando, então temos uma COSMOGONIA, e não uma COSMOLOGIA, pois o argumento é baseado na autoridade da referência e na experiência transcendente do outro, e não em uma explicação LÓGICA debatia que se sustenta por si só a qualque um a partir do uso do LOGOS/RAZÃO (só assim seria uma cosmologia, e não uma cosmogonia).

Enfim, se chegarmos a uma conclusão a partir de debates em ágoras como a voadores, teremos CosmoLogias, e não CosmoGonias. Se por outro lado negamos e evitamos isso, tudo bem, a fé também é caminho, talvez atá mais fácil e proveitoso sob muitos aspectos, mas nesse caso OPTOU-SE por seguir mais COSMOGONIAS do que COSMOLOGIAS.

SANTA INGENUIDADE, JESUS 


5.2 A partir de GENNEA, podemos pensar no que seria IN-GÊNUO. Aquele que não foi gerado pelo parto, que não passou pelo processo genital. Mas isso bate também com o IN-FANTE do latim, aquele que não se constituiu pelo LOGOS enquanto pensamento, fala e razão. Ingenuidade, me parece óbvio, tem aí um contexto até negativo. E é curiosamente significativo que certas religiões neo-platônicas, espiritualistas e cristãs, queiram tanto o reforço dessa "ingenuidade" e "humildade" passiva, que implica no abdicar da razão, e principalmente, da possibilidade de discutir, debater, questionar e SE EXPRESSAR. Convenhamos, isso é muito conveniente aos sacerdotes e mestres contrários ao debater e questionar.

5.2.1 Mais interessante ainda é que, por essa acepção, o mito de Jesus que teria nascido de uma partenoGÊNESE (gerado sem sexo genital, i-maculado [?]) torna-se claramente:

a) Uma COSMOGONIA, explicações baseada em (não) sexo, e não uma CosmoLogia. Ou seja, mito, por definição.

b) Jesus se torna também, etimologicamente, um IN-GÊNUO, não gerado. O que se contrapõe à alegada sabedoria, que seus sacerdotes e médiuns reclamam para si.

c) Os crentes que renegam ou temem o questionar filosófico de sua fé se tornam automaticamente IN-GÊNUOS, IN-FANTES e A-LUMNOS, ou seja, etimologicamente imaturos, não "paridos" para o mundo, ainda em "gestação" frágil e dependente (de um mito cosmoGônico), e avessos à luz (em busca de um Lúcifer que, não por acaso, tentam manter bem longe, como - desculpem o trocadilho in-fame e in-verso - o diabo foge da cruz). Não me culpem pela língua, estou apenas traduzindo e desenvolvendo.

Bem, como disse meu colega @cardoso (arroba cardoso) no Twitter http://twitter.com/cardoso hoje, não é de surpreender: Um sujeito que até os 30 anos acredita que a mãe é virgem precisa ser MUITO ingênuo, mesmo. E, necessariamente, ter fiéis cosmogônicos do mesmo teor in-fantil.


Lázaro Freire
http://twitter.com/lazarofreire (twitter, on-line e atento 16 hs por dia... ou mais)
http://www.voadores.com.br/lazaro (coluna de textos na voadores)
Psicanalista Transpessoal, Licenciando em Filosofia...
... e Herege e Ex-Comungado em todo lugar por onde já passou.

 

 

 

 

http://migre.me/Hde


--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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