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* NETI-NETI: DO SAMADHI AO NADA (Quanto mais desconstruo... mais vejo Deus em tudo)
Publicado em: 09 de fevereiro de 2009, 10:34:51  -  Lido 7912 vez(es)



http://migre.me/gqV 

 

Quanto mais desconstruo...

... mais vejo Deus em tudo.

Isso não, isso não. Neti neti.
Além de toda ilusão.

Impossível explicar. Não é mais Shiva, não é mais Jesus. Não é Maria, não é Saint-Germain. É o vazio onde reside Todo o infinito.

Em várias noites me encontro com Ele. Se é que se pode chamar de "encontro" ver e ser a infinitude do vazio. A tal estrada que, ao final, vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar. E ainda assim saber - ou melhor, viver - que algo estou lá.

Gostaria de ter palavras, mas seriam vazias diante do Todo, e também desconstrutíveis. Gostaria de ter um nome, mas isso também seria "isso não". Então grito, ainda que em silêncio, apenas "Deus".

Tantas vezes o busquei em lugares, e só encontrei igrejas fechadas. Homens e cães guardando seus segredos, controlando o acesso dos buscadores, enquanto mantinham-se eles também do lado de fora, organizando seus novos ritos e denominações.


E sem casa, sem porta aberta, sobram as formas. Que não formam, pois também não são. Néti neti, isso não. E vão se as formas, os nomes, os mitos... E Ele ainda está lá.

 

Queria ter um nome, queria ter palavras, queria poder transmitir a sensação de tudo e de vazio, mas se eu o fizesse bem, isso seria apenas o início de mais uma nova denominação religiosa. Prefeiro lembrar que milhões que realmente o viram, simplesmente se calaram. Eu o vejo em muitas noites, mas Ele não tem nome. E na falta de um, vou chamá-lo apenas de "Deus".

"Buscai a Deus enquanto se pode achar", dizia a capa de uma Bíblia que ganhei há muito tempo atrás. Eu o busquei, até a fusão no Todo, por vários caminhos. Mas mesmo o Todo do samadhi ainda era Pleno, não sei como explicar. Ele era "cheio" de Deus. Ele era um fim de uma estrada que não pode terminar. Mas além dessa camada há outra camada, que reside no Vazio. E desconstruindo tudo, Deus ainda está lá.

Buscai a Deus enquanto se pode achar, me disseram. Mas é justamente onde não mais se encontra que Ele nos achará. Gostaria de poder explicar.

Gostaria de podê-lo chamar de Amor, mas este é sua busca, o que nos conduz a Ele, não o que ele É. Amor é a incompletude que nos faz buscar. Deus não aspira, Deus não ama, Ele É.

 

Mesmo que eu tenha todas explicações, retire todos os deuses, desconstrua todos os credos, algo ainda estará lá, onde tudo começou. Embora "começar" também não seja a palavra. Gostaria de poder explicar, de haver alguma maneira de transmitir essas experiências. Mas a lágrima impotente e feliz me diz que quem o vê, onde for, como for, o revela apenas pelo brilho do olhar.

Enquanto isso, amo, pois não o busco. Busquei enquanto era possível encontrar. Mas é na não busca do impossível que Ele sempre me encontrará.

Ah, como eu gostaria de poder explicar. Mas como tantos antes de mim, há tempos preferi me calar.

Busquei as respostas, aqui e lá, viajei, projetei, aprendi, ensinei, soube que não sei, e era apenas conhecimento.
Acreditei profundamente, segui os caminhos dos homens, entoei mantras, me fundi no samadhi, e ainda era apenas .
Agi, dei exemplos, vivi, ajudei, ouvi, falei, demonstrei, e ainda era apenas ação.


Então rompi as cordas, neguei tudo, vi além de jñana, bhakti e karma, sem deixar de tê-los na referência viva do agora-e-aqui. E ri internamente a cada vez que crentes me chamaram de cético; e os céticos, de crente. Isso não, isso não. Mas todo o conhecimento visa saber que não se sabe; e a fusão pela fé implica perceber a natureza da ilusão.

Queria deixar uma bela mensagem de amor e fé, como tantos que o viram. Falar, como eles, dos deuses do caminho, das consciências de amor dos planos celestiais, da Mãe divina que se revela em todas as mulheres, dos espíritos de luz no caminho da fusão. Mas ainda são formas, ainda são o outro, faróis no caminho de volta. Não é isSo o isTo que falo.

 

Queria confirmar os mitos que me convidaram a vir. Mas cada um deus que me chamou para seus braços, durante essas viagens, dissolveu-se logo após eu passar, não sem antes dar um sorriso cúmplice de quem só revela o que é quando Não É. São o Amor, e nos conduzem. Mas não são o abismo de Ser com Ele, e n'Ele estar.

Gostaria de poder explicar. Mas cada parágrafo em que tento agora termina em uma lágrima, eu encheria livros em metáforas, e ainda não seria o que eu queria falar.

"Se ver o Buda, mate-o"
"O Tao que pode ser expressado não é o Tao absoluto"
"O homem é o fio sobre o abismo entre o devir e o vir a ser"


Neti neti. Isso não, isso não. Deus não é o que está vendo. Não é este ídolo, não é essa parede, não é essa crença, não é essa Terra, não é o astral, não é a deusa que me apareceu em samadhi. Isso não, isso não.

Desconstruí tudo o que me era possível...

... e diante da última camada se abriu o abismo, do nada se fez universo, e Deus estava lá.

Ah, como eu gostaria de poder explicar!!!

Lázaro Freire

Madrugada de 8 de Fevereiro de 2009
(acordado por "Deus" para compartilhar)


--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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