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O dilema existencial de uma psicologia 'científica'
Publicado em: 14 de abril de 2008, 11:47:42  -  Lido 4615 vez(es)



O DILEMA EXISTENCIAL DE UMA PSICOLOGIA “CIENTÍFICA”

Reflexão filosófica sobre o campo da Psicologia

 

Um olhar crítico sobre o histórico da psicologia científica nos revela um grande progresso no estudo recente da condição biopsicosóciocultural do ser humano, ao mesmo tempo em que descortina a dificuldade inerente ao estabelecimento de um novo corpo científico. Herdeira de uma confluência entre fisiologia e filosofia, mas profundamente influenciada por valores e paradigmas temporários e locais (por ex, mecanicismo, pragmatismo, materialismo), a amplitude da definição desta nova ciência lhe obrigou a também abarcar prematuramente todo o escopo de uma série de escolas e teorias nem sempre concordantes ou sequer comparáveis, bem como todo o conhecimento propiciado pelas descobertas das neurociências, da farmacologia e da genética, dentre outras áreas. O resultado é uma área recente e em estruturação, mas ao mesmo tempo excessivamente abrangente – da filosofia do Ser ao apoio patológico hospitalar, do amor às relações trabalhistas, dos mecanismos de aprendizado à razão de viver – a qual vive, segundo alguns de seus historiadores, um “dilema existencial entre ser uma ciência humana ou natural”.

Tendo que ao mesmo tempo tratar de questões e formações tão distintas como psicanálise clínica e apoio à área administrativa de recursos humanos, o psicólogo atual é um graduado que não pode se apresentar e definir apenas por sua profissão, havendona prática a necessidade de especificar sua linha ou área de atuação. E, não raro, ocorre o paradoxo profissional de uma especialização acadêmica respeitável, em qualquer área da psicologia, ser vista como inválida (ou mesmo embuste) por outros profissionais da mesma profissão, e vice-versa. Estes dois fatos, por si só, já deveriam servir de alerta para a necessidade de foco ou subdivisão de um campo de estudos onde há um excesso não só de abordagens e escolas divergentes (como seria comum em outros campos) mas inclusive de áreas, visões e paradigmas completamente diferentes disputando o mesmo terreno.

Com a expansão das escolas teóricas, dos ramos de atuação e dos corpos de conhecimentos ligados ao que se denomina “psicologia”, até mesmo uma formação superior com este título, já estendida para 5 anos, torna-se a cada ano mais incapaz de abarcar e tratar com profundidade todas as principais áreas e subdivisões, o que fatalmente nos traz profissionais no máximo generalistas, menos preparados para lidar com um campo de estudo cada vez maior, em especial com o recente avanço das neurociências, e da participação interdisciplinar crescente da psicologia em outros campos e soluções.

Nesse sentido, o estudo histórico das principais correntes da psicologia (origens, experimentos, bases filosóficas, escolas, autores) é bastante didático, ao demonstrar os inequívocos progressos em vários campos do interesse psicológico. Entretanto, o próprio nascimento – e às vezes desaparecimento subseqüente – de várias visões e escolas aparentemente sólidas mas não raro contraditórias nos faz questionar se os campos de interesse estão assim tão definidos, e suficientemente sólidos e independentes em relação à visão de mundo do tempo e sociedade em que estão inseridos, crítica essa justificada por generalizações passadas que sugerem que o mesmo possa estar ocorrendo atualmente com os  cânones da psicologia atualmente aceita, talvez fruto das distorções de nossa ainda pragmática e positivista visão social.

Como exemplo passado, pudemos notar no histórico da psicologia que a visão empirista, materialista e positivista de mundo, ainda que questionáveis e localizadas enquanto filosofia, quando aplicadas a uma psicologia (que pretende ser científica) trouxeram consigo certas visões não mais vistas como simples objeto de especulação filosófica (questionável e subjetivo por definição), mas já tentando se sustentar como visões absolutas e científicas para a psique. O mesmo ocorreu, por exemplo, em relação ao pragmatismo dos Estados Unidos, que não por coincidência também gerou psicologias norte-americanas bastante influenciadas por aquela visão filosófica voltada ao prático, “útil”, remunerado e que gere “resultados” dentro de um “padrão” sócio-econômico-cultural.

Ora, não há nem pode haver verdades absolutas em filosofia, e muito da investigação da natureza psíquica do ser é, queira-se ou não, filosófica – campo a partir do qual a psicologia nasceu.  Não é por acaso que, repetindo o mesmo equívoco do fundamentalismo, certos agrupamentos psicológicos parecem tratar de uma nova forma de religião, tendo inclusive Freud literalmente defendido que seu terreno de estudo se constituísse como uma “doutrina”.

Assim, a história nos mostra que quando se afasta excessivamente da filosofia para tentar uma aceitação por demais cientificista, o estudo psicológico consegue no máximo se reduzir à fisiologia, e embute ainda o risco de fazer de um saber e pensar de mundo (mecanicismo, empirismo, materialismo, pragmatismo, etc.) uma implementação como verdade final. Entretanto, quando um objeto tipicamente filosófico se converte em “verdade” e “ciência”, surge sempre um “dogma” e “fundamentalismo”.

Este mecanismo já foi observado, em outros tempos, no terreno religioso, mas a própria “teologia filosófica” e “filosofia religiosa” precisaram encontrar ao longo dos séculos soluções para esta coexistência, definindo o campo de atuação da religião e filosofia como algo entre o ínter e o transdisciplinar. Entretanto, o mesmo não ocorre ainda na recém nascida psicologia científica, que no afã de sua definição de identidade, movida a pressões de seus organismos “reguladores” de uma profissão por demais ampla, acaba por equivocar-se historicamente repetidas vezes, propondo para a psique ou comportamento humano verdades científicas quase absolutas, mas que pouco tempo depois quase sempre se revelam mero fruto do senso-comum de um “espírito do tempo” em que se inseriu. Nada mais humano e compreensível, se lembrarmos que o objeto de estudo em última análise é a própria complexidade do homem; entretanto, esta constante mudança de fatos antes ditos “científicos” e auto-crítica nem sempre construtiva atua na contramão do próprio esforço da psicologia científica em ser aceita como tal não por si mesma, como talvez devesse, mas dentro da visão de “ciência” ou “comprobabilidade” de outros campos do conhecimento, que talvez não se aplicassem necessariamente aqui.

Se certos posicionamentos da pesquisa psicológica mecanicista ou estruturalista, por mais importantes historicamente que tenham sido, visivelmente não se aplicam mais à nossa visão de mundo; assim também deveríamos questionar de antemão alguns dos paradigmas cognitivo-comportamentais, pragmáticos ou positivistas do escopo psicológico, admitindo que possam ser válidos porém limitados à visão de mundo onde a psicologia tenta se estruturar; e, paradoxalmente, um limitador interno do próprio desenvolvimento e afirmação que a psicologia tenta – e merece – estabelecer.

Entretanto, voltando à reflexão inicial desta crítica, talvez a psicologia não devesse escolher entre voltar baterias contra suas próprias escolas, numa constante auto-destruição de parte do espaço que ela mesmo havia conquistado anteriormente; nem tampouco optar pelo isolamento de áreas como “oficiais”, a exemplo do que mais recentemente tem ocorrido com, por exemplo, o paradigma cognitivo-comportamental, mais aceito, dentre outros motivos, por adequar-se ao questionável reducionismo diagnóstico do paradigma biomédico atual.

Em nossa reflexão, o próprio dilema existencial citado inicialmente (estabelecer-se enquanto ciência humana versus adequar-se e associar-se tentando espaço como ciência natural) já traz, em sua solução quase impossível, a sugestão de que a psicologia é talvez as duas - simultaneamente humana e natural; objetiva e subjetiva; filosófica e experimental - constituindo não apenas uma nova “ciência”, como tem tentado a passos trôpegos se estabelecer, mas sim todo um novo macro-grupo ou “tipo” de saber, em paralelo com as exatas, humanas, naturais. Assim, a psicologia poderia se libertar da necessidade de ser limitada como uma profissão ou um conhecimento homogêneo “científico” (que não raro esquece seu histórico milenar para mendigar a aprovação de corpos médicos e/ou acadêmicos distintos de seu campo de estudo), podendo se estabelecer não apenas como “uma ciência”, mas toda uma área do conhecimento humano que não exclui visões científicas consonantes como cada tempo e cultura; não uma longa formação superior de generalistas indefinidos que precisão de mais e mais especializações futuras (já trazendo em si o estigma da não aceitação das escolas co-irmãs pelas quais não optar), mas toda uma série de profissões futuras, independentes e interdisciplinares; e não a imposição de ter que se afirmar dentro de um paradigma “científico” do positivismo de séculos atrás, mas sim abrigar, pacífica e evolutivamente, tantas disciplinas ou graduações científicas, experimentais, analíticas, fisiológicas, neurocientíficas ou mesmo filosóficas em seu ramo quanto se façam necessárias – tento todas em comum a especialização na psique, no comportamento e no pensamento do Eu e do Ser.

 

Lázaro Freire
http://www.voadores.com.br/lazaro


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Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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