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Ceticismo dogmático - provas científicas dos fenômenos projetivos e espirituais
Publicado em: 11 de setembro de 2006, 11:38:07  -  Lido 3830 vez(es)



Conversando sobre "provas científicas" dos fenômenos projetivos e espirituais

Por Lázaro Freire, List-Owner da Voadores
Site...: http://www.voadores.com.br
Lista..: http://lista.voadores.com.br
Coluna.: http://ippb.voadores.com.br

Muitos céticos tem, ultimamente, voltado à questão da "exigência" de provas das Experiências Fora do Corpo, não raro adentrando espaços espiritualistas com termos hostis.

Como vejo espiritualistas cometendo erros conceituais ao tentar discutir em vão certos aspectos (as vezes para descobrir adiante que a intenção era apenas desvirtuar), que esta questão das "provas exigidas" merece maior discernimento de nossa parte.

Se a dúvida é do outro, que não teve uma experiência íntima, seria ele quem deveria procurá-la em si (pois é íntima), e não no relato e demonstração do outro. Ou ignorar, se não lhe diz respeito.

É saudável alguém não aceitar para si o que só o outro experimentou. Outra coisa bem diferente seria um pastor invadir a missa para criar atrito (ou vice-versa), ou um cego impedir as pessoas de falarem qualquer assunto relacionado a algo visto, para que "respeitem" a sua limitação.

Lembro-me, nessas horas, das colocações do Wagner Borges: "sua dúvida não abala a minha certeza; se minha certeza incomoda a sua dúvida, corra VOCÊ atrás".

Aliás, penso se o questionador poderia nos provar o sentimento de já ter amado ? ou perdido - alguém. Gostaria de ser desrespeitado em sua expressão por não transferir sua vivência a quem sequer o interpelou? Afinal, mediríamos ali apenas variações de adrenalina, e explicaríamos suas lágrimas como respostas a estímulos neurológicos.

Porém, ler os ingredientes de uma receita é muito diferente de experienciar uma refeição.

Penso também que todas as "provas", se houvessem, seriam refutáveis, uma vez que, como demonstrações externas de algo que ocorreu em nível consciencial, sempre poderiam ter QUAISQUER outras explicações igualmente externas.

Outros, simulando "boa intenção", exigem as provas para que eles as publiquem e convençam as pessoas. Mas se as pessoas não acreditaram em quem as teve, porque acreditariam em quem não experimentou? Não seria mais fácil acreditar no livro original? Como ele, mero pesquisador, provaria sua prova ao novo cético, que teria mais direito ainda de desacreditar nele, oportunista, também?

Poderíamos, entretanto, criarmos a partir das observações alguma teoria ou neo-ciência que explicasse o fenômeno (não basta "dar nomes"). Mas estas precisariam usar paradigmas transcendentes aos atuais, e até estas seriam sempre novas. Como tal, todas estas seriam também, por sua vez, refutáveis. E nada disso anularia a experiência de tantos que relatam ter a experiência, havendo ou não uma "explicação". Notetambém que tudo isso seria uma obrigação nossa de saciar oincômodo gerado pela dúvida do outro. Por quê? Não temos esta pretensão.


É evidente que isto não deve desencorajar a pesquisa (de quem é pesquisador), mas daí a exigência, por parte de céticos, de provas dos práticos, sob pena de discussões infrutíferas, desafios e perseguições, vai distância.

Outra questão é o ambiente hostil da maioria das "pesquisas", mesmo as que tentam ser sérias. A maioria está interessada em provar que NÃO existe a experiência (do outro), fato do qual já está convencido antes de começar a "pesquisa".

Um outro equívoco, este explicado à comunidade científica por Carl G. Jung em seu clássico "Sincronicidade", trata-se de certas investigações serem sempre causais, tentando reproduzir conseqüências após repetições de fatores geradores. Decerto isso ocorre no universo, mas não só. Toda uma outra abordagem seria necessária para tratar da investigação dos acontecimentos ACAUSAIS - dentre eles sincronicidades, repetições inesperadas e improváveis de eventos, experiências íntimas - e projeções astrais.

Outra questão é o paradigma do observador, inferior, por definição, ao observado. Se já se decidiu que o observado não pode existir, para que a pesquisa? Pesquisar admitiria a possibilidade de existência, entretanto, em existindo algo "além", como este poderia ser medido pelo que não está? Pode alguém provar a existência das cores através de imagens em branco e preto? Pesquisar novas fronteiras EXIGE novos paradigmas, também.

Discirna: Alguém que não aceita a projeção astral tampouco tomará como referência a projeciologia. Um psicanalista que admita no máximo a realidade individual não teria motivos para se fiar em elementos coletivos ou "para"-psicológicos.

Um médico embasado na medicina medieval tampouco atribuiria explicações das doenças a "místicos" seres invisíveis, ainda que invisíveis apenas aos seus limitados meios de prospecção. Por uma questão de lógica, não se pode exigir uma explicação transcendente usando apenas valores do transcendido.

Quanto a provas CARTESIANAS, como as pedidas (mais por céticos do que por verdadeiros pesquisadores), é pouco inteligente (e nada científico) exigi-las nestes assuntos. Isso revela, sem querer, uma mentalidade pré-quântica, 2 séculos de atraso, o que não é compatível com nenhuma postura realmente "científica".

Até mesmo a psicologia junguiana (com seu inconsciente coletivo e sincronicidades) e a física quântica (com seus "desaparecimentos" de elétrons, supercordas, e comportamento da matéria como energia), para citar apenas duas áreas populares ensinadas em faculdades tradicionais, tampouco seriam "aprovadas" por este crivo cético inquisitória que ainda quer ver o universo explicado pelas três leis de Newton e/ou pelas dez de Jeová.

Ou seja, ao tentar ser "científico", muitos céticos demonstram apenas estar pelo menos 200 anos atrasados em relação ao conhecimento humano. E aí também revelam que o que professam não é ciência. Ceticismo gratuito é "fé?.

Ciência não é trocar a Bíblia pela Superinteressante (ou menos que isso) e só aceitar como verdade o que o pastor-professor estabeleceu como já ensinável no 2º grau. O método científico não só admite a existência de coisas "além" (do conhecido), como dele DEPENDE.

Tudo o que foi estabelecido era antes desconhecido, logo, é cientificamente ÓBVIO que muitas das coisas "reais" que ocorrem não têm como estar documentadas.


Antes de alguém dar um nome, muito do que hoje é verdade já foi taxado como sobrenatural. Há apenas 150 anos atrás, lavar as mãos (como as freiras) para realizar partos era visto como misticismo. A gravidade é anterior a Newton; a eletricidade à Franklin. Microorganismos já existiam antes dos microscópios. E projeções astrais, também.

É exatamente por isso que existe ciência, que NÃO É o mesmo que ter a "fé dogmática do ceticismo", que não deixa de ser uma opção "religiosa", que demanda a maior de todas as FÉs e CRENÇAs: acreditar e apostar que NADA existe no universo além do já conhecido pelo limitado homem atual.

A ironia é que o ceticismo não é apenas "fé", mas trata-se, também, de uma fé "fundamentalista", já que, devido à sua natureza, tende a ser imposta a quem "acredita" em coisas diferentes. Algumas incursões céticas em espaços (até então) pacíficos, não dedicados nem ao ceticismo nem ao messianismo, são comparáveis as tentativas de conversão ao seu modelo de descrença, contra qualquer evolução nas fronteiras do pensamento. Como em qualquer fundamentalismo, o que realmente está em questão é um tremendo incômodo com o outro, ainda que entre os seus, ter encontrado algum outro tipo de modelo para si. Impossível não lembrar das mesmas causas psíquicas da inquisição.

Neste caso, é paradoxal: a fé cega no racional é, como toda fé, algo irracional.


Raciocine: Em qualquer das épocas passadas da humanidade, sempre havia algo a ser descoberto. E todos os pesquisadores de ponta, do que viria a ser ciência logo a seguir, foram tomados como hereges ou místicos, ainda que falando de coisas que poderiam SIM ser experimentáveis (de algum modo), mas JAMAIS dentro do paradigma de então.

Logo, é razoável pressupor que a história não tenha acabado, e ainda haja muito a ser descoberto, com paradigmas novos tão ou mais surpreendentes do que os revelados por Giordano Bruno, Galileu, Darwin, Einstein, Jung; todos eles heréticos de algum modo. Não se pode descobrir o novo enquanto preso ao antigo.

Entretanto, há uma questão mais incômoda ao ceticismo gratuito, que nem demandaria tanto discernimento assim. É praticamente um erro fundamental, maior até do que a constatação de que a ciência, assim como a história, não acabou. Já citei acima, mas é importante detalhar:

Trata-se da falência, já há tempos, do paradigma cartesiano para explicar todo o universo. Nem mesmo a ciência dita "acadêmica" se mantém fiel sequer ao tempo-espaço linear, como bem sabe qualquer aluno de primeiro ciclo da área de exatas.

Conclusões semelhantes podem ser obtidas na área de humanas, que aplica há tempos conceitos como inconsciente coletivo, arquétipos e sincronicidades acausais; ou mesmo em ramos da biologia, que admitem que pelo menos algumas espécies (como as abelhas) comportam-se como que conectadas a um ser maior do grupo, como se houvesse uma inteligência coletiva (da colméia, no exemplo), que não pode (ainda) ser provada enquanto natureza, mas ainda assim lá está.

Note que a física quântica, e até mesmo a relatividade, baseiam-se em postulados que não podem ser "provados", e extrapolam Newton.

Se nem o salto quântico do elétron que "desaparece" e muda de órbita (conceito inicial de quase toda a física moderna) pode ser provado "cartesianamente", é "pouco inteligente" exigir hoje que justamente as questões internas e/ou conscienciais o sejam.

Ciência implica estar aberto para o novo. Certas exigências de provas dentro de um tempo-espaço linear e causal, (comprovadamente incompleto por Jung e Einstein) soam como uma exigência primária de demonstrar integrais usando apenas as quatro operações, sob pena de analfabetos em álgebra interditarem a faculdade. (*)

No mínimo, trata-se de um "mico" consciencial - mas face ao já descoberto pela ciência de ponta hoje em dia, o "mico" pode ser científico, também.

Lázaro Freire
(que por mais racional que seja em seus argumentos, transborda internamente ao provar de um amor pela vida e pelo um que não pode - nem precisa - provar)



(*) OBS: A figura de linguagem que usei me trouxe a mente agora, não de todo por acaso, o divertido caso real de militares que, certa feita, prenderam um ex-cunhado meu devido ao uso de uma incompreensível (logo, subversiva) régua de logaritmos. Explicaram-se, depois: O tal "artefato de código comunista" estava ao lado de "O Capital" (leitura obrigatória na faculdade de filosofia que ele então cursava) durante o regime ditatorial no qual os militares mergulharam (em trevas) durante décadas o país.


--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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