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CONTO: Noites cor de rosa
Publicado em: 04 de setembro de 2006, 16:05:45  -  Lido 2632 vez(es)



Noites cor-de-rosa

Fechou a mensagem sem ler e desconectou-se da Intenet, com raiva. Todos, naquela
lista de projeção astral, podiam contar seus relatos - menos ele. "Nhe-nhe-nhé,
'me projetei' no umbral, bati no assediador, levei uma chamada do amparador, saí
rodopiando de quatro... Isso tudo era refresco... "
Queria ver como esses caras agiriam, pensou ele, se tivessem o SEU problema...

Nem sempre havia sido assim. Nas suas primeiras projeções aconteciam coisas
estranhas, mas parecia que a coisa era assim mesmo, no dia seguinte nem se
lembrava direito, e pronto.

Mas um dia, projetado num tipo de festa, no duplo do Instituto (logo no duplo do
Instituto, onde todo mundo o conhecia!!!) olhou para baixo e viu os dois grandes
seios, acomodados dentro de um colant cor de anil. Não tinha espelho por ali,
mas podia vislumbrar longas madeixas de cabelos negros caindo-lhe pelos ombros.
Ó horror! Estava travestido!

Na noite seguinte, agora vestindo um chemisier cinza-pérola e sandálias de
saltos altos, prateadas, descobriu que a realidade astral era bem pior: não
estava travestido, como pensara. Projetado, ele ERA uma mulher, mesmo. Com todos
os detalhes. E olhando no espelhinho de maquiagem, teve que reconhecer que era
uma mulher muito bem apanhada, aliás... Sacudiu a cabeça para parar de pensar
besteiras, e tratou de volitar bem rapidinho pra longe dali, pois percebeu que
já estava chamando a atenção de alguns assediadores de plantão, que matavam
tempo por ali.

Durante os dias seguintes só conseguia pensar naquilo. A coisa era séria. Ele
não era disso, era hetero convicto, pelo menos achava que era...

E aí? Pedir socorro para AQUELA lista? Pedir orientação ÀQUELA turma? Ora, ia
ser muita gozação em cima dele, tinha uma reputação a honrar...

Resolveu então se consultar em 'private' com um xamã eletrônico conhecido dele.
Escreveu uma mensagem, com muitas evasivas, tem acontecido com um amigo meu,
sabe como é...

A resposta, estimulando-o a 'sair do armário' pareceu-lhe tão disparatada, que
ele decidiu nem insistir. Não era uma questão de assumir ou não, ele não era
disso, já dissera...

No fim de semana, abalado após uma noitada onde se vira tomando aulas astrais de
flamenco - usando botinas negras de salto quadrado e bico finíssimo,
contrastando com um xale vermelho de franjas, preso à cintura - decidiu-se abrir
com um amigo, também projetor. Disfarçou, é claro - "Olha, foi só uma vez, mas
me vi projetado como mulher... Uma mulher feiosa, até... "

"Ah, isso acontece', disse o outro, "é apenas sua ânima, se manifestando...
Ânima é o lado feminino dos homens. O lado masculino das mulheres se chama
animus... Nunca leu Jung?"

"Que Jung, que ânima, que nada..., acha que eu tenho dessas frescuras, é? Isso
foi é onirismo. O-NI-RIS-MO, tá sabendo?" e encerrou o assunto, irritado.

A coisa continuava e ele tentou de tudo. Decidiu não se projetar mais, e para
isto dormia com um despertador, que o acordava de hora em hora. Foi pior, pois
nas mini-projeções que tinha entre um soninho e outro via-se em todas suas
versões femininas - ora de biquini, ora com um elegante coque nos cabelos,
sentada num banco, chupando (Ó DEUS...) um picolé de morango...

A princípio aquilo tudo desgastou-o muito. Perdeu o apetite, deixou a barba
crescer para se reafirmar, começou a errar nos balancetes (era contador, no
mundo físico)... Mas o pior era não ter pra quem contar (para a namorada? para
os amigos? Nem pensar...). Viver sem dormir não podia, e dormir sem se projetar
não conseguia...

E assim achou que o melhor era deixar o barco ir correndo, fazendo de conta que
nada aquilo acontecia, pra ver se aquela agonia terminava, algum dia.

E como a gente acaba acostumando com quase tudo, nesta vida, numa certa
quarta-feira foi dormir mais cedo - tinha aula astral de etiqueta, naquele
dia...


Bene



--
Benedicto Cohen (Bene)
beneluxbr@yahoo.com.br


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