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CONTO: O projetor mascarado contra o cuspidor de lacraia
Publicado em: 04 de setembro de 2006, 16:14:14  -  Lido 6387 vez(es)

O projetor mascarado contra o cuspidor de lacraia

"Pois foi assim mesmo como eu digo, Diana... Naquela projeção eu estava sozinha,
num lugar frio e deserto, e estava com muito medo de sentir medo, pois sabia que
se fizesse isso ia atrair tudo de ruim, como realmente acabei fazendo...

Foi dito e feito: foi só assumir o meu medo que no momento seguinte me apareceu
um monstro tão sombrio, uma sombra tão monstruosa, que não tive nem voz pra
gritar... Era um vulto dantesco e gigantesco, todo envolto em panos pretos, a
face escaveirada cheia de chifres, cornos e pontas... tremo agora, só de
pensar... E o pior era a fala, toda vez que aquele demoníaco e satânico bafomé
falava, deixava escapar lacraias e escorpiões da boca maldosa e maléfica,
rasgada na face impura... como se fossem pontos, vírgulas, circunflexos e
reticências reforçando as blasfêmias e baixezas que ele dizia... E eu ali
indefesa, paralisada, enquanto ele fechava suas garras giléticas, enluvadas em
manoplas de aço, em torno da minha cintura...

O que eu fiz? Ora, invoquei tudo que é santo, guia, mestre, chorei, berrei... E
aí, de repente, não mais que de repente e ninguém sabe de onde, apareceu o
mascarado... Alto, elegante, todo de branco em alva armadura... A face
semi-oculta por um rico xale persa, que só lhe deixava os olhos à mostra, olhos
negros e profundos, cintilando sua profundidade e negror...

O monstro logo o pressentiu e voltou-se para ele, babando suas lacraias. Sem
alterar nem um cisco o olhar, o mascarado apenas ergueu um dedo em direção ao
vilão. Um rapidíssimo feixe de luz azul precipitou-se então da ponta daquele
dedo santo, indo direto à bocarra do monstro e no segundo seguinte já não havia
mais monstro, nem nada.

Ficamos sós, eu e meu salvador. Trêmula, só pensava, só queria e não sabia como
agradecer ao guerreiro mascarado, e juro, Diana, que naquele momento eu faria
qualquer coisa que ele me pedisse...

Sob seu olhar dominador, tentei meio inutilmente recompor meu roupão, rasgado
pelas unhas-navalha do cospe-lacraias...

Mas então, num arroubo e num repente decidi não me cobrir e apenas esperei que o
belo mascarado viesse buscar seu merecido prêmio. Ah, eu saberia
recompensá-lo...

Mas suas ações revelaram uma nobreza ainda maior, pois em vez disto simplesmente
acenou-me com a cabeça, despedindo-se, e partiu, voando graciosamente.

E assim, lá fiquei, sozinha como no começo, a recompor meus cacos de dignidade
e a pensar em que lição poderia eu tirar daquela experiência.

E quando estava quase chegando à conclusão de que muito mais importante do que a
satisfação dos vis desejos humanos é a beata plenitude da retidão espiritual, vi
um pequeno enxame de negros insetos escuros, bailando no ar como vaga-lumes sem
luz: era a gargalhada do monstrengo fulminado, que, escondido atrás de uma
pedra, ria-se escandalosamente da minha frustração..."



Bene, agosto/2004


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